Tia Martinha

fevereiro 27, 2009 at 10:40 pm (Uncategorized)

Detesto chegar em lugares já cheios. Mas, por uma questão de caridade, entro no Café Portnoy, o único estabelecimento gastronômico da cidade a não tocar música sertaneja. Se chamo minha chegada de caridade é porque ela se trata de um gesto solidário, tanto para os que já estão nas mesas – sem assunto e sem graça uns com os outros, possibilito-lhes que se virem para olhar quem está chegando e comentar qualquer coisa sobre os meus sapatos – quanto para os donos do lugar. Isso porque em pouco tempo fecharão, justamente porque o som ambiente é Adriana Calcanhoto em vez de César Menotti e a bebida é capuccino em vez de Skol.

Sento em uma das mesas e vejo, numa outra, tia Martinha, minha professora no pré. Lembro que ela era uma mulher de vanguarda: já em 1992 (quando um dos meus colegas de faculdade estava apenas nascendo, veja só!) ela fez uma plástica no rosto. Foi o suficiente para meu sofrimento secreto, como eu iria beijar na hora do “até amanhã!” alguém que tinha plastificado o nariz? Uma plástica! O homem teme o que não conhece, e a criança, apenas tem nojo. Não lembro como escapei, só sei que corri e esqueci a lancheira (a primeira de muitas outras).

 Outra coisa de que me lembro é que a tia Martinha manipulou o resultado do sorteio que decidiria quem seria o orador da turma na formatura. Até hoje não tenho como provar, mas é óbvio (exceto para uma criança de seis anos) que a escolhida ser a Natália em vez de mim não era mero acaso. Qualquer professora que se preze não se arriscaria a colocar alguém que não sabia ler “cerimônia” sem gaguejar na formatura. É aí que entra a Natália. Ela sabia. Sabia tanto quanto a tia Martinha sabia contaminar todos os papeizinhos com o nome “Natália”.

Engraçado, nunca tinha reparado que a tia Martinha era meio japa. Olha só. E ela continua com o mesmo rosto de sempre. Certamente animou-se a fazer outras plásticas. Calculo que já deve ter passado dos quarenta. Mas não parece. Até que é bonita, ela. E está olhando pra mim.

(…)

Já faz duas semanas que a gente sai junto. Apesar de ser uma mulher experiente e que sabe o que quer (um eufemismo claro para mulher-que-dá-no-primeiro-encontro), até agora, nada. Mas hoje ela veio diferente. O perfume é outro, o batom é mais vermelho e a saia, mais curta. Chega carinhosa e diz que percebeu que eu quero pedir-lhe algo. Ah, tia Martinha, com certeza eu quero. Até que enfim caiu a sua ficha. Abro a carteira e tiro um papel lá de dentro. “Queridos pais, professoras e coleguinhas. Hoje é um dia especial porque é a cerimônia da nossa formatura”. Agora olha nos meus olhos e confessa, tia Martinha, você roubou ou não roubou pra Natália?

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Eu você mais um

fevereiro 12, 2009 at 6:33 pm (Uncategorized)

Acordei e enchi os pulmões como todo aeróbio faz. Escovei os dentes e sorri para o espelho (conferindo se ficaram mais brancos) como toda criança faz. Caguei e olhei o produto como todo terráqueo faz. Liguei o chuveiro e testei a temperatura com o pé direito como todo destro faz. Enchi as bochechas com água e cuspi em pequenos jatos como todo feliz faz. Olhei meu corpo de lado no espelho como toda gestante faz. Comi um pedaço de queijo como todo normal faz. Fui de metrô para o trabalho como todo corinthiano faz. Chequei primeiro meu Orkut como todo púber faz. Esperei a hora do almoço como todo entediado faz. Peguei o frango com a mão como todo carnívoro faz. Limpei as pontas dos dedos no forro como todo pai faz. Mijei mirando a naftalina no mictório como todo homem faz. Saí sem lavar as mãos como todo sozinho faz. Esperei o dia acabar como todo vampiro faz. Não assisti Big Brother como todo mentiroso faz. Jantei miojo com coca como toda república faz. Vesti meu pijama e deitei como todo filhinho faz. Pedi mais do que agradeci como todo cristão faz. Acordei e já estava morto como todo mundo quer.

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Nos arredores de Mossâmedes

fevereiro 3, 2009 at 7:00 pm (Uncategorized)

Três horas de viagem e o ônibus, sem banheiro, não parou uma única vez. Mas aí chegamos. Goiás. Quando digo Goiás, não é o estado, mas a cidade. Goiás-GO. É o tipo de cidade em que se anda de moto sem carteira. E de vestido. Aqui a gente dorme com a porta da casa só escorada (mas isso eu não vou dizer para não encorajar assaltos). Tem uma praça com uma igreja, como todas as cidades do universo. A diferença é que em frente à praça há uma lanchonete que vende “mais de mil sabores de pastéls”. Na mesma praça, dá pra comprar picolés que já vêm desembrulhados. É do tipo de cidade em que se usa folha de pé-de-mamão deixada no alpendre pra avisar alguém que você passou na casa da pessoa. Tem policial que usa chapéu e conhece sobretudo as crianças. Professora que não deixa a gente ligar o ventilador, mesmo com o calor derretente do cerrado. Dá pra ver o lugar exato em que a Cora Coralina quebrou o fêmur direito. Aqui se mata à moda antiga, com dezessete facadas. Gente vai presa por ser bêbada ou chata. A gente nada com medo de cobra. A gente arma ratoeira com banana como isca. Tem até Ku Klux Klan, mas sem aquela bobagem de racismo. E até a vovó fala palavrão.

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