Entrevista: René Dirty Furlan

março 30, 2009 at 10:29 pm (Uncategorized)

Cloaca Pública: Deus existe?

René: Cara, que pergunta foda. Eu acho que sim. Porque às vezes eu sinto. Às vezes eu sinto coisas estranhas, mas tou usando isso pra tentar corroborar a teoria de que ele existe, porque eu não tenho coragem de afirmar que sim ou de negar completamente, não tenho provas de nada. Mas o conceito de Deus ajuda muita gente. Especialmente para os que sofrem, é bom acreditar num ser superior, imortal e num paraíso para ir após a morte. Faz a vida fazer mais sentido. Eu prefiro acreditar que existe.

Cloaca Pública: Essa resposta é bem diferente da rebeldia que você costuma apresentar. No seu orkut, por exemplo, você diz, entre outras coisas, que “o pior mal para a humanidade é a Igreja”.

René: Mas eu continuo a odiar a Igreja. Deixa eu continuar então? Esqueci de xingar a Igreja. Eu critico é a maneira pela qual as pessoas acham que chegam a Deus. As religiões ditam coisas distorcidas que se deve fazer para chegar a ele. Pegam um livro, o batizam como “a palavra de Deus” e interpretam de acordo com interesses.

Cloaca Pública: Na sua formatura, na hora em que anunciarem seu nome para ir receber o diploma, você prefere que toque “Apago as memórias”, interpretada por Lídio Mateus ou levar um baita tombo no tapete vermelho?

René: Levar um tombo. Eu prefiro passar uma vergonha com uma atitude inesperada do que com uma música ruim que eu escolheria cuidadosamente antes do evento.

CP: Qual é o seu pior pesadelo?

René: Ser sequestrado, me obrigarem a fazer uma carta falsa de suicídio, colocarem uma arma na minha mão e me matarem.

CP: Se pudesse ressuscitar alguém, que seria?

René: Alguém que já morreu?

CP: Bom, considerando que só se ressuscita alguém que já morreu, sim.

René: (risos) Você entendeu errado. Tipo, achei que a pergunta fosse pro futuro, sabe, alguém que vai morrer. Herlan, filho do amigo do meu pai. Ele era muito jovem e parceria.

CP: Prefere peidar alto e inodoro ou silencioso e fétido no jantar em que você está sendo apresentado aos pais da menina dos seus sonhos?

René: Silencioso e fétido, certeza absoluta. Como haverá mais de duas pessoas na mesa, ninguém vai ter certeza de quem foi.

CP: Qual é a palavra que você mais detesta?

René: Serve gerundismos em geral? Se não, não odeio palavras específicas desde que escritas corretamente.

CP: Prefere ter um filho que dança balé ou uma filha que joga sinuca no boteco?

René: Filha que joga sinuca, pois eu não gosto de balé e também essa dança indica alta probabilidade de o praticante ser homossexual, ao contrário de gurias jogando sinuca, que é muito sexy.

CP: Você quer que sua filha seja sexy?

René: Sim, quero ter uma filha sexy. Mas não vulgar.

CP: Prefere ser o artilheiro idolatrado da Venezuela ou o terceiro goleiro do Brasil?

René: O terceiro goleiro do Brasil, pois aqui o futebol é mais famoso, teria mais chances de ir pra fora (é o que eu queria) e não gosto da Venezuela.

CP: Você odeia profundamente alguém?

René: Não, pois o ódio contém sentimento de vingança e de interesse em acompanhar a vida do odiado. O que eu tenho é sentimento de desprezo, que, acho eu, é melhor. Sabe quando tu percebe que a pessoa faz algo pra te incomodar e com atitudes dela que te irritam. Eu sinto isso por uma pessoa. Mas não é da faculdade, tu nem conhece.

CP: Prefere ser impotente sexual duas vezes por semana ou asno dia sim, dia não?

René: Impotente duas vezes por semana, pois eu não ficaria na seca. Escolheria o dia certo e já era.

CP: Você gosta mais da sua mãe ou do seu pai?

René: Os dois igualmente, sei que é resposta padrão, mas é verdade. Os dois têm atitudes que eu curto e que eu não curto também. Os dois se equilibram.

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Convenção social

março 28, 2009 at 2:56 pm (Uncategorized)

Entramos no supermercado e peguei dois pães. Sessenta e cinco centavos, a moça do caixa falou. Dei uma nota de dois e esperei o troco, que veio em várias moedas. Deixei pra conferir já dentro do carro.
– Não é possível – falei.
– Não é possível o quê? – ela perguntou.
– Aquela desgraçada dar o troco errado pra gente. Tá faltando trinta centavos aqui.
– Mesmo? Vai ver ela se enganou – minha mulher falou, tentando minimizar a tragédia.
– Se enganou o escambau. Conheço bem esses filhas da puta. Fazem isso pra cobrir erros que eles cometem até o final do expediente. Isso se não for por pura malandragem.
– Calma, meu bem, vai ver estão com falta de moedas.
– Justamente. Se estão com falta, como é que dão um monte de moedas de cinco? Se fossem de cinquenta economizava mais. Isso é tática deles. Te enchem a mão de moedas para você ficar com preguiça de conferir e ir embora. O pior de tudo é que eu ainda agradeci. Agradeci a sacanagem.
– Você não sabe se foi sacanagem…
– Ela deve estar até agora rindo da minha cara. Isso é que dá.
– Isso é que dá o quê?
– Essas convenções sociais idiotas.
– Como assim?
– Como assim? Como assim que tudo é convenção social.
– Dar troco errado é convenção social?
– Não, foder com os outros tem outro nome: filhadaputagem. Convenção social é a gente não conferir o troco na frente do caixa, só pra não parecer indelicado.
– Ah, isso é mesmo. Me mataria de vergonha você lá, contando moedinha por moedinha e criar caso por conta de vinte centavos.
– Vinte não, trinta.
– Que seja. É muito pouco.
-Aí, tá vendo? Outra convenção social.
– Qual?
– Essa ideia de que moeda não vale nada. Vale sim senhora. Já vi gente comprar casa só com moeda.
– Sei, sei.
– Porra, não acredita? Você não assiste o Fantástico não?
– Eu não.
– Ah é, esqueci que só tem tempo pra assistir a Luciana Gimenez. Não sei qual o segredo daquela bosta de programa.
– Muito melhor que o Zeca Camargo. Zé caga amargo, isso sim.
– É mesmo. A Gimenez pelo menos é gostosa.
– Ai, já vai começar.
– Ela é gostosa ou não é? É, uai. E a senhora gosta. Aquele programa só fica mostrando mulher boa lá, desfilando de lingerie. Vai dizer que você acha que eles mostram aquilo por causa da lingerie?
– E por que não?
– Por que não? Porque em vez de eles falarem o preço das calcinhas, ficam falando os ml dos peitões.
– Tá, e o que isso tem a ver com moedas? Vai dizer que já viu modelo comprar silicone com moeda também?
– Ainda não. Mas daqui uns dias, quem sabe.
Nessa hora dei sinal de virar à esquerda e comecei a pegar o caminho de volta para o supermercado.
– Aonde você está indo? – ela perguntou, desconfiada.
– Para o supermercado. Vou voltar lá – falei, sem tirar os olhos do retrovisor.
– Ai, não acredito nisso. Encosta aí, eu vou descer.
– Vai nada. Eu preciso de você lá.
– Pra quê? Pra não passar vergonha sozinho?
– Não. Pra te entregar o troco certo. Assim você já começa a juntar dinheiro pra por silicone nos seus peitos.
– Eu tou falando sério. Para o carro.
– De jeito nenhum.
– Eu vou pular dessa droga.
– Pula então. Quero ver.
– Poxa, não faz isso. Vamos embora, pelo amor de Deus!
– Deus. Deus disse “não furtarás”. A caixa me furtou trinta centavos, não posso deixar isso acontecer. Contraria a justiça divina. E essa de “pelo amor de Deus” é só convenção social.
– É, é sim. Só que a gente querer dinheiro também é só convenção social.
– Tem razão.
– Tenho?
– Claro. Vamos embora pra casa – eu falei, dando sinal de virar à direita – Eu não vou viver de convenção social porra nenhuma. Só espero que aquela vagabunda faça bom proveito dos meus vinte centavos.
– Trinta, amor.
– Que seja.

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18 de março

março 19, 2009 at 11:55 pm (Uncategorized)

00:01 – acabo de jantar e escovo os dentes com cuidado em respeito a algumas aftas
00:09 – leio um livro na tentativa de esquecer o estômago estufado e lembrar que na verdade estou é com sono
00:31 – deito com a consciência pesada por estar com os cabelos ainda molhados do banho (faz mal)
02:10 – completo 23 anos de pulmões funcionando, mas não percebo, pois estou sonhando que estou sendo vítima de uma pegadinha do Sílvio Santos
08:26 – levanto
08:33 – acordo
10:12 – lendo a caixinha de cereais, descubro um pouco mais sobre a Quinua, o alimento inca mais completo do planeta
11:00 – minha irmã faz seu telefonema anual para mim. Como não estou, deixa recado pedindo para que eu retorne a ligação mais tarde
11:15 – pensamento dispensável nº1: é incrível como funcionários do Banco do Brasil conseguem criar uma dimensão particular afastada de todos os impacientes, atrasados e furiosos ao redor blasfemando contra sua velocidade em atender
11:18 – pensamento dispensável nº2: o que impede o bandido de, rapidamente, colocar sua arma no porta objetos, passar pela porta giratória e pegá-la de novo do outro lado?
12:35 – verdade simples mas não simplória dita pelo meu irmão: “Aproveite, porque amanhã já acabou a graça”
12:49 – almoço de métodos higiênicos pouco ortodoxos na casa da tia Márcia
13:28 – sobremesa: pudim de passas de Rutherford!
14:20 – protesto do vizinho para a filha: “Cadê Dom Pedro? Cadê Borba Gato? Agora, PETECA?! Sua escola manda você vir fazer trabalho sobre peteca?!
16:37 – discussão com meu amigo Tampouco: é preferível peidar alto mas inodoro ou silencioso mas fétido num jantar de apresentação à família da sua namorada?
20:31 – coloco minha camiseta favorita para sair com meus pais para o jantar carnívoro especial de aniversário
20:32 – pensamento dispensável nº3: meu Deus! Depois de onze anos fã de Ramones e quase dois de estudante de medicina é que me dou conta quão absurdo é o clipe de “I wanna be sedated”. Enquanto um médico ausculta a cabeça de Joey Ramone, uma enfermeira aplica uma injeção por cima da jaqueta de couro
21:51 – depois do jantar, o sorvete. Opto pelos sabores mais esdrúxulos
22:36 – será “Alive” a melhor música do Pearl Jam?
23:54 – um pouco assustado, acordo de um cochilo na sala com o Luciano do Valle gritando gol
00:00 – adeus, glória.

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