Ela

maio 14, 2009 at 10:37 pm (Uncategorized)

Quando eu tinha mais ou menos doze anos, uma súbita e incrível vontade de defecar instalou-se em mim. Devido a minha pouca idade e, consequentemente, aos poucos revezes da vida já sofridos, vivia ainda naquela crença de que só deveria cagar estando na minha própria casa. O fato de encontrar-me na escola naquele momento e, pior, em aula, só dificultava as coisas. “Professora, tenho que ir embora. Estou passando mal”. Eu não menti quando disse isso, afinal, a iminência de um desastre como aquele era passar mais mal do que qualquer cólica menstrual que algumas de minhas colegas experimentavam pela primeira vez. Sair da escola até que foi fácil. Difícil foi ir a pé, confiando no poder do meu esfíncter. Não deu. Depois de andar apressado por onze quarteirões, não deu. Faltavam apenas duas quadras, já daria pra ver chaminé da minha casa se ela tivesse uma. Lá chegando, escondi a tragédia de todos, sobretudo da minha mãe. A única prova do crime, minha cueca, incinerei no quintal.

Eis que onze anos depois, já tendo mudado de endereço seis vezes, vou à casa de uma colega, onde nunca estive antes, fazer um trabalho para a faculdade. Somos seis pessoas mesclando concentração nos números e fórmulas com divertidas piadinhas. E de repente Ela volta. Mas volta muito mais vigorosa. E não deixa dúvidas de que era Ela. Senti meu próprio intestino expulsar seu conteúdo para sua porção mais distal. A vontade de ir aos pés que se abateu sobre mim foi tamanha que só tive tempo de pensar: faço aqui mesmo ou levanto e vou embora? Como dessa vez seria apenas um quarteirão até chegar ao meu apartamento, opto por despedir-me dos colegas. “Tchau, gente” – disse apenas. “Por que você já vai, Inclusive?” – perguntou um que se dizia meu amigo. “Quem tudo quer saber, cedo envelhece” – respondi. Não havia tempo para explicações.

Senti que dessa vez novamente Ela triunfaria. Ela era poderosa demais. Tentei correr, só piorei as coisas. Passei então a caminhar rápido, como naquelas marchas atléticas. O caminho, mesmo curto, foi suficiente para pensar um turbilhão de coisas. Por que não usei o banheiro da menina? E se meu companheiro de quarto estiver tomando banho no único banheiro do apartamento quando eu chegar? Essa rua é escura o suficiente para cagar sem ser visto? Já começava então a lamentar ter que incinerar mais uma cueca. Dessa eu gostava tanto! Naquele momento já dava para ver a chaminé do prédio, caso ele tivesse uma. Em horas como essas é que vejo que não vale a pena morar no último andar só por causa da vista. Mas uma confluência de fatores favoráveis e milagrosos aconteceu: o elevador estava no térreo, ninguém embarcou nele e eu acertei a chave de casa na primeira tentativa. A última barreira, a do amigo tomando banho, também foi vencida. O banheiro era todo meu.

Já se passaram vinte e oito minutos e ainda estou sentado no vaso sanitário. Dessa vez Ela não triunfou. Ou melhor, talvez tenha triunfado. Talvez ela quisesse apenas demonstrar que, mesmo depois de onze anos, ainda ronda a minha vida. Talvez quisesse mostrar-se como um mal latente e ciumento, do tipo que exige que paremos tudo para dar-lhe atenção exclusiva. Dessa vez foi apenas um recado. Mas tenho medo de que Ela volte, vingando-se das ocasiões em que estamos em casa, com o banheiro a poucos passos distância, e não nos dignamos a levantar do computador para aliviar nossa vontade de cagar. Cuidado, amigo. Não A provoque.

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Posto de gasolina

maio 12, 2009 at 11:48 am (Uncategorized)

Há dois dias que a luzinha vermelha indicando gasolina na reserva estava acesa. Entrei por uma das duzentas entradas do posto e o frentista veio até o carro. Álcool ou gasolina, ele perguntou. Pedi um pouquinho de cada, como naquela propaganda, mas não pelo hype do comercial. Era a consciência ecológico-ambiental nossa de cada dia atuando: se por um lado o álcool evita que o petróleo do mundo acabe no mês que vem, a gasolina evita que alagoanos sejam explorados cortando cana nas usinas. Mas essa reflexão eu deixo para o João Lyra. O fato é que pedi mezzo-mezzo.

Desconfiando que eu teria direito a uma lavada grátis no carro, perguntei para o frentista quanto custava o serviço. Só nessa hora é que ele me revelou a verdade inconveniente: abastecendo vinte litros, você ganha uma lavada grátis. Senti que, acompanhando esse “grátis”, deveria haver algum asterisco. E tinha: a lavada era de graça, mas para secar custava cinco reais. Enquanto o rapaz lavava meu carro, eu pensava no que deveria passar pela sua cabeça naquele momento. Quantos carros ele lavava todos os dias, sendo que talvez ele nem mesmo tivesse um? Carros de filhinhos-de-papai de 23 anos como eu, que nunca trabalharam, enquanto que ele, que trabalhava desde os onze (e agora com quarenta) ainda não tinha podido comprar um? Era algo de que eu não me orgulhava.

Mas aí chegou alguém para me fazer esquecer do meu sentimento de vergonha por um segundo. Era um autêntico dândi com camisa da Tommy Hilfiger. Chegou, pegou a chave do conversível que tinha deixado para encerar, abriu a carteira de modo solene e, com o desdém próprio de gente rica, perguntou: Quanto é mesmo, amigão? Amigão. Sei. E o pior é que o povo acredita. Os mais pobres deveriam saber que gente rica não os vê como amigões, enquanto que os mais ricos deveriam saber que gente pobre não os vê como heróis.

Feito, moço – disse o homem que tinha lavado meu carro. Tá bom, falei. Você seca pra mim, por favor? Ele secou. Na hora de pagar, entreguei a última nota de cinco (as outras eram de dois) e agradeci. O homem ficou parado me olhando e com um sorriso sem graça falou: Sabe o quê? É que a partir de hoje é sete reais pra secar o carro. Nessa hora olhei para onde ele estava apontando e vi que o cartaz que dizia o preço novo estava sendo colocado naquele instante. Inconformado, lutei pelo meu direito: enfiei a mão no bolso e tirei uma nota de dois e paguei. O meu direito era o de ficar calado, claro. Afinal o rapaz não tinha nada a ver com aquilo, a não ser, claro, que eu encrencasse. Aí o patrão colocaria toda a responsabilidade em cima do infeliz. Na saída, comprei um maço de cigarros e fumei de uma vez só. Eu já tinha sido politicamente correto demais naquele dia.

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