Posto de gasolina

maio 12, 2009 at 11:48 am (Uncategorized)

Há dois dias que a luzinha vermelha indicando gasolina na reserva estava acesa. Entrei por uma das duzentas entradas do posto e o frentista veio até o carro. Álcool ou gasolina, ele perguntou. Pedi um pouquinho de cada, como naquela propaganda, mas não pelo hype do comercial. Era a consciência ecológico-ambiental nossa de cada dia atuando: se por um lado o álcool evita que o petróleo do mundo acabe no mês que vem, a gasolina evita que alagoanos sejam explorados cortando cana nas usinas. Mas essa reflexão eu deixo para o João Lyra. O fato é que pedi mezzo-mezzo.

Desconfiando que eu teria direito a uma lavada grátis no carro, perguntei para o frentista quanto custava o serviço. Só nessa hora é que ele me revelou a verdade inconveniente: abastecendo vinte litros, você ganha uma lavada grátis. Senti que, acompanhando esse “grátis”, deveria haver algum asterisco. E tinha: a lavada era de graça, mas para secar custava cinco reais. Enquanto o rapaz lavava meu carro, eu pensava no que deveria passar pela sua cabeça naquele momento. Quantos carros ele lavava todos os dias, sendo que talvez ele nem mesmo tivesse um? Carros de filhinhos-de-papai de 23 anos como eu, que nunca trabalharam, enquanto que ele, que trabalhava desde os onze (e agora com quarenta) ainda não tinha podido comprar um? Era algo de que eu não me orgulhava.

Mas aí chegou alguém para me fazer esquecer do meu sentimento de vergonha por um segundo. Era um autêntico dândi com camisa da Tommy Hilfiger. Chegou, pegou a chave do conversível que tinha deixado para encerar, abriu a carteira de modo solene e, com o desdém próprio de gente rica, perguntou: Quanto é mesmo, amigão? Amigão. Sei. E o pior é que o povo acredita. Os mais pobres deveriam saber que gente rica não os vê como amigões, enquanto que os mais ricos deveriam saber que gente pobre não os vê como heróis.

Feito, moço – disse o homem que tinha lavado meu carro. Tá bom, falei. Você seca pra mim, por favor? Ele secou. Na hora de pagar, entreguei a última nota de cinco (as outras eram de dois) e agradeci. O homem ficou parado me olhando e com um sorriso sem graça falou: Sabe o quê? É que a partir de hoje é sete reais pra secar o carro. Nessa hora olhei para onde ele estava apontando e vi que o cartaz que dizia o preço novo estava sendo colocado naquele instante. Inconformado, lutei pelo meu direito: enfiei a mão no bolso e tirei uma nota de dois e paguei. O meu direito era o de ficar calado, claro. Afinal o rapaz não tinha nada a ver com aquilo, a não ser, claro, que eu encrencasse. Aí o patrão colocaria toda a responsabilidade em cima do infeliz. Na saída, comprei um maço de cigarros e fumei de uma vez só. Eu já tinha sido politicamente correto demais naquele dia.

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3 Comentários

  1. cesar said,

    Nilo… tô me deliciando com esses textos!

    Vai fundo…

    Sei que ficou um comentário gay… mas como estou tranquilo da minha masculinidade, deixo para os que estão em dúvida, a dúvida.

  2. Lia said,

    “Era a consciência ecológico-ambiental nossa de cada dia atuando: se por um lado o álcool evita que o petróleo do mundo acabe no mês que vem, a gasolina evita que alagoanos sejam explorados cortando cana nas usinas. ”
    ótima argumentação..rs
    Parabéns por ter lutado mais uma vez pelos seus direitos ficando calado!ahahahha..e.
    encrenca…desd qdo vc tem carro e fuma?Pooo..

  3. Arth Silva said,

    Não tem como não terminar de ler esse conto, a primeira linha é um gancho que te empurra desenfreadamente pra ultima palavra do texto.

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