Desgraça

agosto 27, 2009 at 1:44 am (Uncategorized)

O quarto semestre da faculdade acabou com a minha vida. Uma vez por semana eu pensava em largar o curso. Uma vez por mês eu pensava em suicídio. Há dois anos, mal passei no vestibular e prontamente me disseram “Aproveita o começo, porque quando chegar no quarto semestre você vai ver o que é bom pra tosse”. Lembro que na época eu pensei “Não pode ser tão mal assim. Disseram a mesma coisa sobre a matemática da sétima série e eu não morri por isso”. Foi o meu primeiro engano.

Doze minutos de aula já foram suficientes para me apavorar. O professor, além de mal, era mau. E ainda por cima parecia se comprazer em sê-lo. Falou uma série de coisas que não poderíamos fazer e zero coisas que poderíamos fazer. Não satisfeito em ver os alunos rendidos, humilhados e de joelhos, apresentou-nos o famoso ciclo de Krebs. Minha primeira reação foi de pânico. Mas, adulto que sou, pensei “Não pode ser tão mal assim. Até a tabuada do nove eu já achei difícil um dia”. Foi o meu segundo engano.

Nas raras vezes em que conseguia dormir, meu referencial de sonho abstrato deixou de ser “voar” ou “falar com Deus” e passou a ser “isocitrato desidrogenase” e “reciclagem da ureia”. Deixei de usar fio dental para economizar tempo. Lembrava do hormônio ocitocina (cuja ação é a de ejetar leite estimulado pela sucção das mamas) em momentos relacionados, mas absolutamente inapropriados. A coisa estava tão feia que o telefonema anual de aniversário que minha irmã me faz converteu-se em três no intervalo de um mês para saber se eu estava bem. “Não pode ser tão mal assim”, ela disse. Eu até concordei. Foi o meu terceiro engano.

Em mais uma das mortais aulas de bioquímica, a professora teve a ingrata ideia de comentar as provas que tínhamos feito uma semana antes. Nunca esquecerei das suas palavras: “Gente, eu dei uma olhada nas provas. Eu estou hor-ro-ri-za-da”. Meu Deus. Se apenas com “uma olhada” ela ficou horrorizada, imagine quando ela ler a fundo a minha prova. Não demorou muito e ela acrescentou “E tem gente escrevendo com a letra feia demais. Tem uma prova lá que eu não entendi nada do que estava escrito”. Nessa hora eu pensei “Só falta ser de mim que ela está falando”. Foi o meu primeiro acerto. A professora, impiedosa, falou meu nome. Foi a única vez em que risos foram ouvidos durante uma aula dela. Além de burro, eu era agora humilhado. Escrever, antes motivo de orgulho, agora me causava insegurança.

A única coisa que passou a fazer minha vida valer a pena era a consciência de que aquilo um dia acabaria. E esse dia já estava marcado: 17 de agosto de 2009. Pausa. Quem aqui se lembra de quando a gripe suína começou a ficar mais forte no Brasil? Eu me lembro. Agosto de 2009. Um idiota deve estar pensando  “Mas nessa época aí era mais lá no Rio Grande do Sul”. Que coincidência. Acho que é uma boa hora para dizer onde fica minha faculdade: Pelotas, Rio Grande do Sul. As aulas então foram suspensas indefinidamente. Eu até torci para pegar a doença, como forma de ter que repetir o semestre, mas com classe. Por motivo de saúde o aluno não pôde fazer as últimas provas. Mas aqui estou, angustiantemente saudável, com a mesma alegria de um funcionário que trabalha sob o aviso de demissão.

Espero que um dia eu possa ler esse texto e rir, lembrando com saudade dessa época. Saudade só comparável à que tenho do nazismo, do domínio português, da final da Copa de 98, do presidente Médici e do surgimento da Aids.

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