18 de março

março 19, 2009 at 11:55 pm (Uncategorized)

00:01 – acabo de jantar e escovo os dentes com cuidado em respeito a algumas aftas
00:09 – leio um livro na tentativa de esquecer o estômago estufado e lembrar que na verdade estou é com sono
00:31 – deito com a consciência pesada por estar com os cabelos ainda molhados do banho (faz mal)
02:10 – completo 23 anos de pulmões funcionando, mas não percebo, pois estou sonhando que estou sendo vítima de uma pegadinha do Sílvio Santos
08:26 – levanto
08:33 – acordo
10:12 – lendo a caixinha de cereais, descubro um pouco mais sobre a Quinua, o alimento inca mais completo do planeta
11:00 – minha irmã faz seu telefonema anual para mim. Como não estou, deixa recado pedindo para que eu retorne a ligação mais tarde
11:15 – pensamento dispensável nº1: é incrível como funcionários do Banco do Brasil conseguem criar uma dimensão particular afastada de todos os impacientes, atrasados e furiosos ao redor blasfemando contra sua velocidade em atender
11:18 – pensamento dispensável nº2: o que impede o bandido de, rapidamente, colocar sua arma no porta objetos, passar pela porta giratória e pegá-la de novo do outro lado?
12:35 – verdade simples mas não simplória dita pelo meu irmão: “Aproveite, porque amanhã já acabou a graça”
12:49 – almoço de métodos higiênicos pouco ortodoxos na casa da tia Márcia
13:28 – sobremesa: pudim de passas de Rutherford!
14:20 – protesto do vizinho para a filha: “Cadê Dom Pedro? Cadê Borba Gato? Agora, PETECA?! Sua escola manda você vir fazer trabalho sobre peteca?!
16:37 – discussão com meu amigo Tampouco: é preferível peidar alto mas inodoro ou silencioso mas fétido num jantar de apresentação à família da sua namorada?
20:31 – coloco minha camiseta favorita para sair com meus pais para o jantar carnívoro especial de aniversário
20:32 – pensamento dispensável nº3: meu Deus! Depois de onze anos fã de Ramones e quase dois de estudante de medicina é que me dou conta quão absurdo é o clipe de “I wanna be sedated”. Enquanto um médico ausculta a cabeça de Joey Ramone, uma enfermeira aplica uma injeção por cima da jaqueta de couro
21:51 – depois do jantar, o sorvete. Opto pelos sabores mais esdrúxulos
22:36 – será “Alive” a melhor música do Pearl Jam?
23:54 – um pouco assustado, acordo de um cochilo na sala com o Luciano do Valle gritando gol
00:00 – adeus, glória.

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Tia Martinha

fevereiro 27, 2009 at 10:40 pm (Uncategorized)

Detesto chegar em lugares já cheios. Mas, por uma questão de caridade, entro no Café Portnoy, o único estabelecimento gastronômico da cidade a não tocar música sertaneja. Se chamo minha chegada de caridade é porque ela se trata de um gesto solidário, tanto para os que já estão nas mesas – sem assunto e sem graça uns com os outros, possibilito-lhes que se virem para olhar quem está chegando e comentar qualquer coisa sobre os meus sapatos – quanto para os donos do lugar. Isso porque em pouco tempo fecharão, justamente porque o som ambiente é Adriana Calcanhoto em vez de César Menotti e a bebida é capuccino em vez de Skol.

Sento em uma das mesas e vejo, numa outra, tia Martinha, minha professora no pré. Lembro que ela era uma mulher de vanguarda: já em 1992 (quando um dos meus colegas de faculdade estava apenas nascendo, veja só!) ela fez uma plástica no rosto. Foi o suficiente para meu sofrimento secreto, como eu iria beijar na hora do “até amanhã!” alguém que tinha plastificado o nariz? Uma plástica! O homem teme o que não conhece, e a criança, apenas tem nojo. Não lembro como escapei, só sei que corri e esqueci a lancheira (a primeira de muitas outras).

 Outra coisa de que me lembro é que a tia Martinha manipulou o resultado do sorteio que decidiria quem seria o orador da turma na formatura. Até hoje não tenho como provar, mas é óbvio (exceto para uma criança de seis anos) que a escolhida ser a Natália em vez de mim não era mero acaso. Qualquer professora que se preze não se arriscaria a colocar alguém que não sabia ler “cerimônia” sem gaguejar na formatura. É aí que entra a Natália. Ela sabia. Sabia tanto quanto a tia Martinha sabia contaminar todos os papeizinhos com o nome “Natália”.

Engraçado, nunca tinha reparado que a tia Martinha era meio japa. Olha só. E ela continua com o mesmo rosto de sempre. Certamente animou-se a fazer outras plásticas. Calculo que já deve ter passado dos quarenta. Mas não parece. Até que é bonita, ela. E está olhando pra mim.

(…)

Já faz duas semanas que a gente sai junto. Apesar de ser uma mulher experiente e que sabe o que quer (um eufemismo claro para mulher-que-dá-no-primeiro-encontro), até agora, nada. Mas hoje ela veio diferente. O perfume é outro, o batom é mais vermelho e a saia, mais curta. Chega carinhosa e diz que percebeu que eu quero pedir-lhe algo. Ah, tia Martinha, com certeza eu quero. Até que enfim caiu a sua ficha. Abro a carteira e tiro um papel lá de dentro. “Queridos pais, professoras e coleguinhas. Hoje é um dia especial porque é a cerimônia da nossa formatura”. Agora olha nos meus olhos e confessa, tia Martinha, você roubou ou não roubou pra Natália?

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Eu você mais um

fevereiro 12, 2009 at 6:33 pm (Uncategorized)

Acordei e enchi os pulmões como todo aeróbio faz. Escovei os dentes e sorri para o espelho (conferindo se ficaram mais brancos) como toda criança faz. Caguei e olhei o produto como todo terráqueo faz. Liguei o chuveiro e testei a temperatura com o pé direito como todo destro faz. Enchi as bochechas com água e cuspi em pequenos jatos como todo feliz faz. Olhei meu corpo de lado no espelho como toda gestante faz. Comi um pedaço de queijo como todo normal faz. Fui de metrô para o trabalho como todo corinthiano faz. Chequei primeiro meu Orkut como todo púber faz. Esperei a hora do almoço como todo entediado faz. Peguei o frango com a mão como todo carnívoro faz. Limpei as pontas dos dedos no forro como todo pai faz. Mijei mirando a naftalina no mictório como todo homem faz. Saí sem lavar as mãos como todo sozinho faz. Esperei o dia acabar como todo vampiro faz. Não assisti Big Brother como todo mentiroso faz. Jantei miojo com coca como toda república faz. Vesti meu pijama e deitei como todo filhinho faz. Pedi mais do que agradeci como todo cristão faz. Acordei e já estava morto como todo mundo quer.

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Nos arredores de Mossâmedes

fevereiro 3, 2009 at 7:00 pm (Uncategorized)

Três horas de viagem e o ônibus, sem banheiro, não parou uma única vez. Mas aí chegamos. Goiás. Quando digo Goiás, não é o estado, mas a cidade. Goiás-GO. É o tipo de cidade em que se anda de moto sem carteira. E de vestido. Aqui a gente dorme com a porta da casa só escorada (mas isso eu não vou dizer para não encorajar assaltos). Tem uma praça com uma igreja, como todas as cidades do universo. A diferença é que em frente à praça há uma lanchonete que vende “mais de mil sabores de pastéls”. Na mesma praça, dá pra comprar picolés que já vêm desembrulhados. É do tipo de cidade em que se usa folha de pé-de-mamão deixada no alpendre pra avisar alguém que você passou na casa da pessoa. Tem policial que usa chapéu e conhece sobretudo as crianças. Professora que não deixa a gente ligar o ventilador, mesmo com o calor derretente do cerrado. Dá pra ver o lugar exato em que a Cora Coralina quebrou o fêmur direito. Aqui se mata à moda antiga, com dezessete facadas. Gente vai presa por ser bêbada ou chata. A gente nada com medo de cobra. A gente arma ratoeira com banana como isca. Tem até Ku Klux Klan, mas sem aquela bobagem de racismo. E até a vovó fala palavrão.

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Quanto custa

janeiro 26, 2009 at 3:17 pm (Uncategorized)

Quando as portas se abrem, quem hesita um segundo que seja, fica de pé. Calculo exatamente pra que lado vou quando entrar no metrô. Para a esquerda é melhor, bem ao lado dos assentos especiais para idosos, gestantes e outros obstáculos. Lá dentro tento adivinhar quais daquelas pessoas vão também vão para o show. O cabeludo não vai, o de boné vai, a tatuada vai e o emo não.

A famosa Rua Augusta é tão famosa quanto me disseram. Bares em todas as esquinas, lotados de gente do lado de fora (não porque não possam entrar, mas para olharem o movimento da rua, tão dinâmica quanto sei lá o quê). Descendo ainda mais a ladeira que é a Augusta começo a entender melhor a procura pelo lugar: mais casas de striptease (e afins) que igrejas em Ouro Preto. Na porta de uma delas, um homem com dentes tortos anuncia, pra quem quisesse ouvir ou pra quem fingisse não ouvir “Mesa pra casal com direito à cadeira elétrica; quem tiver sozinho ganha bucetada na cara”. Engraçado ele dizer “ganha”.

“Clube Outs”. É aqui. Entro na fila e quinze minutos depois estou lá dentro. “Quer pagar mais vinte reais e consumir quarenta?” Nunca, obrigado. Já escoro no balcão do bar pra pedir uma bebida, como manda a tradição. Cerveja: R$5. Conhaque: R$6. Os dois mais baratos, fora a água. Me recuso a pagar por água, não enquanto eu morar em cima do aquífero Guarani. Mato a sede com uma cerveja ou relaxo com um conhaque? Tanto faz, um copo só não vai cumprir nenhuma das duas funções.

Uma e meia começa o show. Junto, começa a roda punk mais generalizada e letal que já vi na vida. Dentro dela, um cara tão grande, tão careca e tão gordo que não decidi se chamo de grandão, carecão ou gordão. Ele mantinha o músculo abaixador do ângulo da boca acompanhando o contorno do cavanhaque, fazendo cara de mau. Mas até que não empurrava tanta gente, apenas rebatia quem trombava nele, num novo tipo de choque elástico. A namorada o abastecia com água, que ele bebia, por algum motivo imbecil, sem usar as mãos.

Nisso, um menino disfarçado de emo me pergunta “Aí, você tá com essa mina aí?” (apontando para uma garota ao meu lado). Não não, cara, pode ir lá. Ele então gritou algo no ouvido dela que não distigui, mas concerteza oferecendo-se à menina. A resposta não poderia ser mais clara: um beijo na boca de uma outra garota, ao lado dela. Em vez de se lamentar, o cara grita “urrulll!!!” e sai pulando com o braço levantado.

No fim do show, o vocalista abaixa as calças e nos apresenta sua bunda, pensando que a plateia acha massa. E o pior é que a gente acha. Pago a cerveja, saio e entro no primeiro táxi, ainda pensando no que deveria ser a cadeira elétrica.

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Minhas férias

janeiro 21, 2009 at 2:31 pm (Uncategorized)

Desde que cheguei em São Paulo fui apresentado a muita gente importante. A dentista do Gianecchini, uma ex-namorada do BBB Alemão e um cara que não sei quem é, mas como me cumprimentou sem olhar pra mim, nós dois achamos que ele é alguém famoso.

Outra coisa aqui na cidade é o pão francês. Péssimo. É a pior relação custo-benefício que já comi. Cheguei na padaria “Madame”, na qual não encontrei nenhuma, e pedi Um pão, por favor. O padeiro me olhou feio, mas não tanto quanto quando pedi só duas fatias de mussarela e uma de presunto. Talvez ele ganhe comissão, afinal.

“Capa de chuva, capa de chuva! Duas é cinco, duas é cinco!” – foi o que me prometeu o vendedor, gritando no caminho do Pacaembu. Mais tarde, já no estádio, assim que o juiz deu o primeiro apito, um homem sem camisa ao meu lado fez o sinal da cruz três vezes, seguidas de uma pequena salva de palmas. Eu queria saber qual a reação de Deus quando alguém pede para o Corinthians ganhar. Não deu dez minutos de jogo e começou a cair o maior pé d’água do Brasil. Aquele mesmo homem, o devoto, vira pra mim e diz que “sem um conhaque ou uma maconhinha não dá pra pegar essa chuva não” e foi logo comprando uma capa, que agora estava a dez reais cada.

Enfim, pra quem for para São Paulo, não coma pão francês e torça pelo Corinthians. Se sentir fome, compre um Mupy (sabor morango ou limão). Se chover no estádio, aproveite. As camisas das corinthianas são brancas.

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